Serialização de Dados

A Ponte entre Memória e Comunicação em Microsserviços

Compreendendo serialização de dados: conceitos, formatos textuais e binários, uso de esquemas com JSON e Protocol Buffers em arquiteturas distribuídas.


O Que é Serialização?

Serialização é o processo de converter uma estrutura de dados ou objeto de um formato em memória (como objetos em Java, Python, etc.) em um formato que pode ser armazenado (em disco) ou transmitido (via rede), para posteriormente ser reconstruído no estado original através da desserialização.

Explicação da Imagem

Diagrama de uma estrutura de dados Java e seu processo de serialização para uma sequência de bytes a ser enviada pela rede ou gravada em disco.


Por Que Precisamos da Serialização?

Em arquiteturas de microsserviços, onde diferentes serviços rodam em processos, máquinas ou até data centers separados, a serialização é fundamental para permitir a comunicação entre esses componentes distribuídos.

O Fluxo Completo de Comunicação

Fluxo de serialização entre microsserviços

Explicação da Imagem

Diagrama de um microsserviço A, com sua respectiva memória RAM contendo uma estrutura de dados sendo serializada em dados binários para ser enviada pela rede.

Explicação da Imagem

Os dados binários trafegados pela rede são processados pela desserialização no microsserviço B com sua respectiva memória RAM.


Componentes da Serialização: Formato, Esquema e Codificação

Formato

O formato determina como os dados são organizados durante a serialização. Cada tecnologia de comunicação utiliza formatos específicos que são convertidos em bytes para transmissão.

Explicação da Imagem

Diagrama mostrando uma estrutura de dados sendo formatada em bytes, a depender da tecnologia de comunicação.

Formatos de Serialização por Cenário de Uso

Cenário de Uso
Formatos Comuns
Tipo
Esquema
Conversão para Bytes

REST/HTTP APIs

JSON ou XML

Textual

Opcional (JSON) / Obrigatório (XML)

Texto → Codificação (UTF-8/16) → Bytes

gRPC

Protocol Buffers

Binário

Obrigatório (.proto)

Estrutura tipada → Serialização binária otimizada → Bytes compactos

Mensageria

Avro, Thrift, MessagePack

Binário (principalmente)

Obrigatório (Avro, Thrift) / Implícito (MessagePack)

Dados → Compactação específica do formato → Bytes eficientes

Armazenamento

Serialização Nativa (Java, .NET, Python Pickle)

Binário

Implícito (da linguagem/runtime)

Objeto em memória → Serialização interna do runtime → Bytes específicos da plataforma


Esquema (Schema) & IDL: A Estrutura por Trás dos Dados

Codificação Textual

A codificação textual utiliza formatos baseados em texto legível por humanos, como JSON e XML. Esses formatos representam dados através de caracteres, símbolos e estrutura visível, facilitando a inspeção manual e o debug.

Exemplo JSON:

Principais características:

  • Legível por humanos

  • Estrutura hierárquica visível (chaves, tags)

  • Codificação de caracteres necessária (UTF-8, ASCII)

  • Metadados inclusos no payload (nomes de campos repetidos)

  • Ideal para APIs REST, configurações e integrações externas

Papel dos Esquemas (Schemas)

O esquema é a definição formal da estrutura dos dados, especificando tipos, regras e relacionamentos. Em formatos textuais:

Formato
Mecanismo de Esquema
Obrigatoriedade

JSON

JSON Schema

Opcional

XML

XSD (XML Schema Definition)

Frequentemente usado

YAML

Pode referenciar JSON Schema

Raramente utilizado

Exemplo de JSON Schema:


Interface Description Language (IDL)

O IDL é uma linguagem específica para definir contratos de dados e serviços de maneira estruturada e processável por ferramentas.

Comparação direta:

Aspecto
Codificação Textual
Uso de Esquemas/IDL

Foco

Como os dados são representados

Como os dados são estruturados

Legibilidade

Para humanos

Para humanos e máquinas

Necessidade

Sempre presente nos dados

Pode ser separado dos dados

Exemplos

JSON, XML, CSV

JSON Schema, XSD, OpenAPI

IDL em ação:

  • JSON Schema para validação de dados JSON

  • XSD para definição de estrutura XML

  • OpenAPI para documentação de APIs REST

  • AsyncAPI para especificação de sistemas de mensageria


Relação entre Codificação e Esquema

Fluxo típico:

  1. Define-se um esquema (JSON Schema, XSD)

  2. Dados são serializados em formato textual (JSON, XML)

  3. O esquema pode validar a conformidade dos dados

  4. Ambos (esquema e dados) são transmitidos ou armazenados

Pontos importantes:

  • Formatos textuais podem existir sem esquema explícito

  • Esquemas melhoram a qualidade e confiabilidade dos dados

  • IDLs permitem geração de código e documentação automática

  • A combinação oferece flexibilidade com controle


Comparação entre Codificações

JSON (Formato Textual)

Características

  • Baseado em texto (UTF-8)

  • Legível por humanos

  • Schema opcional (JSON Schema)

  • Amplamente adotado em APIs REST

  • Suporte nativo em JavaScript e maioria das linguagens

Exemplo de Dados (legível por humanos)

Esquema (opcional - JSON Schema)

Vantagens do JSON

  • Fácil debug (os dados são legíveis)

  • Amplo suporte ecológico

  • Flexibilidade (campos dinâmicos)

  • Ideal para APIs públicas e front-end

Desvantagens

  • Overhead maior (mais bytes)

  • Sem tipagem forte por padrão

  • Parsing mais lento que formatos binários

  • Validação requer ferramentas externas


Protocol Buffers (Formato Binário)

Características

  • Formato binário compacto

  • Não legível por humanos

  • Schema obrigatório (.proto files)

  • Alto desempenho

  • Desenvolvido pelo Google

  • Padrão para gRPC

Esquema (obrigatório - arquivo .proto)

Exemplo de dados serializados: (Não legível - representação hexadecimal aproximada)

Vantagens do Protocol Buffers:

  • Tamanho muito reduzido (até 3-10x menor que JSON)

  • Serialização/desserialização muito rápida

  • Tipagem forte em tempo de compilação

  • Compatibilidade evolutiva (backward/forward)

  • Geração automática de código

Desvantagens:

  • Requer ferramentas específicas (compilador protoc)

  • Dificuldade de debug (dados binários)

  • Menor flexibilidade (esquema rígido)

  • Curva de aprendizado inicial


Tabela Comparativa Resumida

Critério
JSON
Protocol Buffers

Legibilidade

Alta (texto)

Baixa (binário)

Tamanho

Maior

3-10x menor

Performance

Mais lento

Muito rápido

Esquema

Opcional (JSON Schema)

Obrigatório (.proto)

Tipagem

Fraca/dinâmica

Forte/estática

Uso típico

REST APIs, Web

gRPC, comunicação interna

Flexibilidade

Alta (campos dinâmicos)

Baixa (esquema fixo)

Validação

Runtime

Compile-time


Considerações para Escolha em Microsserviços

JSON

  • APIs voltadas para front-end ou clientes externos

  • Quando legibilidade para debug é importante

  • Prototipagem rápida e iterações frequentes

  • Sistemas com equipes multiplataforma

  • Quando a compatibilidade com ecossistema web é crucial

Protocol Buffers

  • Comunicação entre microsserviços internos

  • Quando performance e latência são críticos

  • Em ambientes com alto volume de tráfego

  • Quando já se usa gRPC como protocolo RPC

  • Para contratos com evolução controlada

Melhores Práticas Híbridas

Muitas organizações adotam abordagens híbridas:

  • Borda externa: JSON para APIs públicas

  • Interno: Protocol Buffers para comunicação entre serviços

  • Gateways de API: Convertem entre formatos quando necessário

  • Contratos únicos: Esquema central que gera ambos os formatos


Evolução e Compatibilidade

Versionamento de Esquemas

  • JSON: Menos estruturado; depende de convenções

  • Protocol Buffers: Suporte nativo a campos opcionais, removidos e renomeados

  • Regra de ouro: Nunca remover campos obrigatórios em esquemas compartilhados

Migração Segura

  1. Adicionar novos campos como opcionais inicialmente

  2. Usar valores padrão para campos não preenchidos

  3. Manter compatibilidade por múltiplas versões

  4. Comunicar breaking changes com antecedência

A escolha da estratégia de serialização impacta diretamente a performance, manutenibilidade e evolução dos sistemas distribuídos, sendo uma decisão arquitetural fundamental no design de microsserviços.


Escolhendo a Abordagem Correta

A serialização é a base da comunicação em sistemas distribuídos. Sua escolha deve considerar:

  • JSON para APIs públicas e quando legibilidade é essencial

  • Formatos binários (Protocol Buffers, Avro) para comunicação interna e performance crítica

Os esquemas (schemas) são fundamentais em qualquer abordagem, garantindo contratos claros e evolução controlada.

A estratégia ideal frequentemente combina ambos: JSON para interfaces externas e formatos binários para comunicação interna entre serviços. Essa abordagem híbrida oferece o melhor equilíbrio entre interoperabilidade e desempenho.

A decisão final deve considerar volume de dados, necessidades de debug, ecossistema tecnológico e requisitos de performance específicos do seu contexto arquitetural.

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